Simbiose
Dois velhos conhecidos encontram-se e trocam saberes sobre a vida.
- Eu tenho notado que há algo que ainda não consigo identificar que faz com que pessoas não denunciem coisas erradas que ocorrem ao seu redor.
- Será que é medo de retaliação, de ser perseguido, de ficar marcado? Ou algo como “cada um que cuide da sua vida”? Ou que denunciar nada resolverá?
- Isso significa que a pessoa que identificou os erros acaba convivendo com esses erros como se os aceitasse. Ou que é impotente para lidar com o caso.
- De qualquer modo, isso gera dissonância cognitiva. E a dissonância cognitiva gera um estado de desconforto e tende a produzir gente que se aliena.
- Você acha que as pessoas estão deixando de denunciar erros por não acreditarem mais que alguém se interessará em solucioná-los? É isso?
- Isso e mais algo como “já me bastam os meus problemas”. E há mais, se outros erram, eu também posso errar. Isso não deixa de ser reconfortante.
- Fica parecendo uma relação simbiótica em que eu não denuncio o outro que não me denuncia. Não denunciar acaba sendo vantajoso para todos.
- O descaso é uma boa política para varrer os problemas para baixo do tapete. Eu vi, mas faço de conta que nada vi. É a hipocrisia que entra em cena.
- Alguém ainda pode argumentar que denunciar não é minha tarefa; onde está a fiscalização? Quam faz os controles? Quem zela pela qualidade?
- E há os que pensam que rotular algo como errado é politicamente incorreto. Há os que argumentam que erros são relativos; não há unanimidade.
- Isso relativiza a noção de certo e errado. Há inúmeros exemplos em que o que fora considerado erro no passado, hoje é considerado acerto. E vice-versa.
- E há algo bizarro naquele que denuncia o erro. Muitas vezes quem denuncia é condenado socialmente pela denúncia e passa a ser o vilão do caso.
- Enquanto o errado é o injustiçado, a vítima, e acaba sendo protegido.
- Então, parece mesmo haver uma simbiose entre o erro e quem denuncia: eu não mexo com você e você não mexe comigo. E ninguém denuncia alguém.