Desleixo
Dois velhos conhecidos encontram-se e trocam saberes sobre a vida.
- Nossa seção eleitoral fica na mesma escola estadual há anos. Você reparou o estado de abandono da escola? Principalmente nessas duas últimas eleições?
- Assim que caminhei pelo pátio, achei ter visto pequenas pastilhas no chão de cimento, mas não eram pastilhas; eram chicletes pisados e repisados.
- E as marcas de pés nas paredes? O reboco esfarelado? As torneiras pingando? As lâmpadas queimadas? As plantas esturricadas?
- Como os funcionários se sentem, trabalhando num lugar visivelmente abandonado? E os professores? Os alunos? De onde retiram ânimo?
- Penso que todos acabam se acostumando com o feio, o deteriorado, o carente de cuidados e de manutenção. Vi portas com fechaduras quebradas.
- O que será que os pedagogos dizem sobre como um ambiente desses interfere na aprendizagem? Será que dizem algo ou se acostumaram ao feio?
- Como nós fomos permitindo que espaços públicos fossem sendo degradados, sem que alguém se manifestasse?
- Certamente houve vozes denunciando o estado de abandono das escolas, mas são vozes não levadas a sério. Perdemos o foco do mérito para a política.
- Por outro lado, o que nós vimos naquela escola reflete o que ocorre na educação como um todo: algo estagnado, precário, ineficiente, ineficaz. Caos!
- Não sei se você observou, mas nessa eleição, ao menos onde nós estávamos, não havia distribuição de santinhos nem de sujeira pelo chão.
- Notei, sim. Aliás, o entorno da escola estadual estava mais limpo e bem-cuidado que o interior da escola. Vi pessoas descartando lixo nos contêineres.
- Também não entendo o porquê de o governo municipal não intervir e requerer que o governo estadual cuide melhor da manutenção das escolas.
- Essa eu entendo. Aqui, evitam atritos porque governo municipal e estadual são do mesmo partido político. É o corporativismo político.
- Ah, sim! Só se cobram providências do adversário político. Que desleixo...