Abutres
Dois velhos conhecidos encontram-se e trocam saberes sobre a vida.
- Ontem conversei com o Alfredo, lembra-se dele? O que foi meu vizinho.
- Lembro-me, principalmente da mulher dele que se achava uma baronesa.
- Sim. A professora de ioga que corrigia a todos dizendo que a pronúncia correta é “iôga” e não “ióga”. E ainda arcava as sobrancelhas...
- Ela passou a me odiar quando eu disse que, de acordo com o Volp, as duas pronúncias são corretas em português. A calmaria da ioga evaporou-se...
- O Alfredo comentou algo que eu também acho irritante. Por ser idoso, ele tem desconto de 50% no IPTU, por ser seu único imóvel.
- Sim, nós também temos esse desconto. O que houve com ele que o irritou?
- A prefeitura fez uma varredura nos cartórios de registros e descobriu um terreno no nome dele e cancelou o desconto. Mas o terreno não era mais dele.
- Entendi. Ele vendeu o terreno por meio de escritura, mas o registro do imóvel não foi atualizado. Oficialmente, o terreno continua sob a titularidade dele.
- Duas coisas irritaram Alfredo. A primeira, é que os cartórios não conversam entre si, o que é uma falha grosseira. E ele afirma que não fora instruído.
- E o IPTU do terreno? Se o terreno não foi registrado, não se pode transferir a titularidade do IPTU. Será que o comprador vem pagando o IPTU?
- Esse é o segundo motivo da irritação. Alfredo descobriu que o IPTU, no nome dele, foi para dívida ativa e não há mais possibilidade de apelação.
- Pois é, vivemos num país em que o bandido é protegido. Ele terá de pagar a dívida, com juros e correção monetária. E talvez precise de um advogado.
- Exato. O aborrecimento ficará todo para o Alfredo, além do pagamento da dívida, das providências para informar o cartório de registros e a prefeitura.
- Depois disso tudo estar encerrado, ele voltará a pedir o desconto no IPTU.
- Tanto trabalho desnecessário porque somos reféns de abutres.