Escolhas
Dois velhos conhecidos encontram-se e trocam saberes sobre a vida.
- Eu tenho lido sobre as controvérsias em torno dos benefícios e malefícios da circuncisão feita em meninos recém-nascidos, judeus e muçulmanos.
- Sei pouco sobre o assunto, mas sei que há médicos que recomendam e médicos que condenam a circuncisão. Uns chamam-na de mutilação definitiva.
- Sim. Há médicos que recomendam a remoção da pele que recobre o prepúcio, a cabeça do pênis, e médicos contrários a essa remoção.
- Parece que há evidências científicas que suportam as duas recomendações.
- Sim. A minha questão é de outra natureza. A circuncisão é irreversível. E quem faz a escolha? Os pais, geralmente por motivação religiosa.
- Os pais, diretamente, e a comunidade, indiretamente. Eu acho que sei aonde você quer chegar: o circuncidado não pôde participar da escolha.
- Exato. O circuncidado um dia fica adulto e pode não concordar com a circuncisão, mas nada pode fazer para revertê-la. Considera-se um mutilado.
- Em sociedades que valorizam a liberdade e os direitos individuais, essa prática torna-se motivo de debates acalorados. Muitos podem não a aceitar.
- Você já notou que o mesmo raciocínio se aplica aos nossos nomes? Às vezes até antes de uma criança nascer, os pais já definiram um nome para ela.
- E a criança é registrada com esse nome e tem de carregá-lo até a morte, mesmo que deteste o nome. O tal nome de batismo não se muda e pronto.
- Você conhece pessoas que não gostam do próprio nome? Eu conheço muitas. Eu não gosto do meu e acho que você também não gosta do seu.
- Não gosto, mas nada posso fazer. Não fui consultado e tenho de carregar a decisão dos meus pais por toda a vida. Eu queria poder escolher meu nome.
- Com as religiões, não é diferente. Quem acredita no Deus cristão provavelmente nasceu numa família católica ou evangélica. Não há escolha.
- Religiões ainda podem ser escolhidas posteriormente, mas nome e circuncisão vêm no kit. Mais uma herança controversa das tradições religiosas.