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René Henrique Götz Licht
Escritos de uma vida
Textos

Resgate 

 

Dois velhos conhecidos encontram-se e trocam saberes sobre a vida.

 

- Ontem, perguntaram-me: “se fosse possível passar um tempo com alguém que não está mais aqui, quem você escolheria?”. Faço essa pergunta a você.

 

- Eu escolheria meu amigo Jerson, aquele que tirou a vida. Não para convencê-lo a não fazer o que fez, mas para dizer-lhe o quanto eu o amava. E amo.

 

- Por que não tentar convencê-lo a ficar e viver a vida aqui?

 

- Ele havia decidido que não valia a pena viver aqui. Era decisão lúcida, filosófica; não estava doente, nem física nem psiquicamente. Eu o respeitaria.

 

- E você precisava de uma oportunidade para lhe dizer o que ele significava para você, certo? Para que ele partisse levando o seu amor com ele, certo?

 

- Certo. Eu sabia que ele tiraria a própria vida; isso estava definido e ele me havia participado essa decisão bem antes. E você? Quem você reencontraria?

 

- Meu pai. Eu tentaria fazer-lhe justiça. Ele não me deu amor, mas tratava-me bem. Eu não o tratava mal, nem bem, por influência da minha mãe.

 

- Então, sua mãe você não iria querer reencontrar?

 

- Não. Se fosse possível, queria poder reencontrar meu pai para tentar fazer o que não pude fazer por incapacidade, imaturidade, ou sei lá o quê.

 

- Nas discussões entre seus pais, você ficava do lado da sua mãe? É isso?

 

- É isso! E disso me arrependo. Meu pai entendia a minha natureza melhor que minha mãe. Certa vez eu o ouvi dizer à minha mãe que eu era uma criança sensível e que eu faria tudo o que ela quisesse, se ela soubesse como pedir.

 

- Entendo. Seu pai conhecia a sua natureza. Ele não brigava com você?

 

- Não me lembro de ter apanhado do meu pai ou de ouvi-lo gritar comigo. Ele conversava, mas não era dado a afetos, abraços ou beijos. Nem minha mãe.

 

- Na nossa época, no relacionamento entre pais e filhos, não havia muito espaço para trocas afetivas. Era uma relação mais autoritária e de obediência.

 

- Por isso que eu queria poder dizer que, apesar de tudo, amo meu pai.

René Henrique Götz Licht
Enviado por René Henrique Götz Licht em 29/08/2026
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