Resgate
Dois velhos conhecidos encontram-se e trocam saberes sobre a vida.
- Ontem, perguntaram-me: “se fosse possível passar um tempo com alguém que não está mais aqui, quem você escolheria?”. Faço essa pergunta a você.
- Eu escolheria meu amigo Jerson, aquele que tirou a vida. Não para convencê-lo a não fazer o que fez, mas para dizer-lhe o quanto eu o amava. E amo.
- Por que não tentar convencê-lo a ficar e viver a vida aqui?
- Ele havia decidido que não valia a pena viver aqui. Era decisão lúcida, filosófica; não estava doente, nem física nem psiquicamente. Eu o respeitaria.
- E você precisava de uma oportunidade para lhe dizer o que ele significava para você, certo? Para que ele partisse levando o seu amor com ele, certo?
- Certo. Eu sabia que ele tiraria a própria vida; isso estava definido e ele me havia participado essa decisão bem antes. E você? Quem você reencontraria?
- Meu pai. Eu tentaria fazer-lhe justiça. Ele não me deu amor, mas tratava-me bem. Eu não o tratava mal, nem bem, por influência da minha mãe.
- Então, sua mãe você não iria querer reencontrar?
- Não. Se fosse possível, queria poder reencontrar meu pai para tentar fazer o que não pude fazer por incapacidade, imaturidade, ou sei lá o quê.
- Nas discussões entre seus pais, você ficava do lado da sua mãe? É isso?
- É isso! E disso me arrependo. Meu pai entendia a minha natureza melhor que minha mãe. Certa vez eu o ouvi dizer à minha mãe que eu era uma criança sensível e que eu faria tudo o que ela quisesse, se ela soubesse como pedir.
- Entendo. Seu pai conhecia a sua natureza. Ele não brigava com você?
- Não me lembro de ter apanhado do meu pai ou de ouvi-lo gritar comigo. Ele conversava, mas não era dado a afetos, abraços ou beijos. Nem minha mãe.
- Na nossa época, no relacionamento entre pais e filhos, não havia muito espaço para trocas afetivas. Era uma relação mais autoritária e de obediência.
- Por isso que eu queria poder dizer que, apesar de tudo, amo meu pai.