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René Henrique Götz Licht
Escritos de uma vida
Textos

Mudas 

 

Dois velhos conhecidos encontram-se e trocam saberes sobre a vida.

 

- Meus ouvidos doem quando ouço “pisicólogo”, “adevogado”, “opito”, “indiguino”, “obijeto”, “capito”, “subitrair”, “inguinorante” e tantas outras.

 

- É um vício deplorável. Por que tanta gente introduz uma vogal que não existe na palavra? Qual é a dificuldade de pronunciar uma consoante muda?

 

- É o que me pergunto também: psicólogo, advogado, opto, indigno, objeto, capto, subtrair, ignorante não são palavras de pronúncia complexa.

 

- Será que quem introduz uma vogal nessas palavras nunca foi corrigido por um professor ou por alguém no trabalho, por exemplo?

 

- Primeiro, precisaria ser corrigido por alguém que conhece a matéria. Segundo, nossa cultura lida mal com correções. Corrigir equivale a ofender.

 

- Lembro-me de já ter ouvido “opição” em vez de opção, “adiversário” em vez de adversário, “ritimo” em vez de ritmo, “adiministrar” em vez de administrar, “obistáculo” em vez de obstáculo, “recepição” em vez de recepção.

 

- O problema é que quem pronuncia as palavras erradamente corre grande risco de escrevê-las erradamente também.

 

- Das culturas que conheço, a brasileira é, de longe, a mais relaxada com a sua própria língua. Isso me dá um dó que parte o coração.

 

- E há mais! “Paradiguima” em vez de paradigma, “perempitório” em vez de peremptório, “piguimento” em vez de pigmento, “siguinificado” em vez de significado, “subimeter” em vez de submeter, “verediquito” em vez de veredicto.

 

- Você sabe, nossa cultura tem certo desprezo por regras estabelecidas; muita gente faz suas próprias regras e entende que todos devem aceitá-las.

 

- Esse pensamento bizarro faz com que o certo seja relativo e o errado, possível. Cobrar a postura correta é interpretado por muitos como um ato ditatorial desses que tolhe a liberdade individual.

 

- Verdade! E hoje, com as redes sociais, quem posta texto com erros acaba sendo lido e os erros cada vez mais propagados e imitados.

 

- O que fazer para que um povo ame e respeite sua própria língua?

René Henrique Götz Licht
Enviado por René Henrique Götz Licht em 20/06/2026
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